segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Urticária Emocional



"SE APAIXONAR PELA PESSOA ERRADA PODE SER UMA ESPÉCIE DE MEDO DE COMPROMISSO?"

Quase duas da manhã. Madrugada de segunda-feira. Aquela contagem regressiva de quantas horas eu ainda posso dormir, fazendo com que o sono suma para um lugar far, far away. Pensando na vida. Merda, eu não posso pensar na vida, pensar na vida é insônia certa. Mas é nesses momentos de desespero, q surgem as melhores epifanias.

Comecei a pensar no curso de roteiro q está rolando, e que eu tanto queria fazer. Pensei na Maysa dizendo que as aulas estavam sendo quase como sessões de terapia coletiva. Piadas maldosas à parte, fiquei pensando sobre os exercícios propostos durante a oficina, em especial, sobre o primeiro exercício, onde os alunos tem q levar um objeto representativo, algo importante e verdadeiramente fundamental.

E no meio da madrugada, olhando através da penumbra para meu quarto, onde jaz tudo q eu posso chamar de meu, me dou conta q, se eu estivesse realmente fazendo a oficina, me debateria, e muito, para arranjar algo meramente parecido com a proposta do exercício. Me dei conta então, que não tenho nada físico, material, que seja representativo de mim ou para mim. Talvez um livro ou algum cd. Não, não. Eu não me identifico através deles. Nem mesmo uma jóia de família, um brinco ganho em alguma ocasião especial, um presente de uma amiga, um molho de chaves. Nada. Absolutamente nada. Tudo que me cerca poderia ser substituído, não é indispensável, não são coisas pelas quais eu tenha um apego especial, ou q tenham marcado momentos significativos. Meus momentos especiais sempre foram vividos intensamente. Mas na maioria das vezes, também foram vividos internamente, emocionalmente. E estão devidamente guardados em caixinhas junto ao peito, para servirem de alimento no futuro. Mas objetos? Não. Nada. Nem mesmo um terço, um mala, nada.

Comecei então a pensar no pq disso, no pq dessa inexistência de objetos importantes. E a resposta mais óbvia seria a de que, com tantas mudanças de casa e de cidade (mais de 25), aprendi a não depositar minhas memórias e sentimentos em objetos, mas em pessoas.
Forçando mais um pouquinho a barra, e pensando q se eu estivesse no curso, teria q surgir com um objeto de qquer maneira (dizem q o professor é braaaavooo), pensei q a única coisa que teria um significado realmente simbólico e representativo, seria o canudo do diploma que, se Buddha quiser, eu vou ganhar até o final do ano. Seria a única coisa que para mim, representaria um momento, uma transição, um caminho.

Fiquei então pensando no que essa faculdade, da qual estou louca para sair, representava para mim, e minha mente me levou de volta às mudanças. E de volta ao meu eu de 18 anos, morrendo de medo, e entrando na tão sonhada faculdade de cinema. Lembro que na primeira vez em que eu entrei na Estácio de Sá, no Rio de Janeiro, no ano de 2000 (e o mundo não tinha acabado!), eu pensei: "um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade". Mas acho q era um passo grande demais para mim também.

A questão é que sonhos são assustadores de se realizar. Especialmente quando vc tem 18 anos, e nunca viveu nada real, sempre preferiu ficar no mundo da fantasia ao invés de se arriscar no big, bad world. Sonhos são assustadores de se realizar, pq qdo o universo acaba conspirando a favor, e vc se vê, do nada, fazendo a única coisa que vc achava que queria fazer desde os 12 anos de idade, então, naquele momento, se algo der errado, vc não tem ninguém a quem culpar. Nem à vida, nem aos pais, nem a nada ou ninguém. Só vc mesmo. E isso dá medo. E aos 18 anos, qdo vc tem medo, vc foge correndo. E eu corri tão longe, q atravessei oceano, dizendo que aquele sim, era meu grande sonho.

E depois da frustração de voltar correndo mais uma vez (agora qdo eu penso, me dou conta que passei anos correndo, sem nem saber do q, ou para onde), me negava a começar uma faculdade. Passei anos apavorada pela simples idéia de ficar 4 anos sentada na mesma cadeira, presa à mesma cidade, à mesma rotina. E talvez tendo que abandonar tudo isso de uma hora para outra, como sempre foi.
Ontem li no twitter uma frase do Paulo Coelho, q dizia não acreditar em mudanças graduais, mas em epifanias revolucionárias. Lembro que sorri ao ler isso, pq na minha vida tbem, nada foi lento e gradativo, tudo parece ter sido abrupto, mais do que mãozinhas do destino, as coisas sempre aconteceram meio que como grandes empurrões para dentro (ou para fora) do abismo.
E foi assim que, em 2005, em meio a uma crise colossal, fiz o vestibular para Relações Internacionais forçada. Não fui eu q fiz minha inscrição, e admito, fui fazer a prova a contragosto, meio que no efeito dos remédios para dormir e dos antidepressivos que eu tomava então. E o fato de que eu ainda podia fazer o vestibular dopada e passar em primeiro lugar fala muito mal da UTP, ou muito bem de mim, não é mesmo?

Enfim, ainda pensando nessa instabilidade toda, nessa agonia que eu sentia - e ainda sinto de tempos em tempos - em relação a faculdade, à uma carreira, à um compromisso, comecei a pensar e traçar paralelos com a minha malfadada vida amorosa, afinal é nela q eu me concentro, ou melhor, concentrava, em 99,99999999% do tempo.

Será que essa urticária emocional se refletia também nas minhas escolhas sentimentais?



Comecei a fazer uma lista mental dos homens pelos quais eu havia sido verdadeiramente apaixonada durante a minha so called, vida adulta.
Voltei até 2001/2002, onde o objeto da paixão era obviamente um idiota, que terminou se apaixonando pela minha irmã. Anos depois, veio o ex-jogador profissional de pôquer, que anunciava que não queria relacionamentos, e eu mesma assim, fui me apaixonar. Depois, e mais recentemente, veio o "esse é para casar", por quem eu me apaixonei perdidamente, fiz planos, e (que milagre!) tambpem fez planos comigo. Planos que nunca poderiam ser realizados devidos aos embrolhos em que ele estava metido (momento para um huuugeeee parênteses: esse ainda se revelou um total psycho, com direito a email mentindo sobre um acidente gravíssimo, para q eu voltasse a falar com ele. Ninguém merece). Depois e meio que durante este psicótico, veio então, the latest one. O objeto de tantos posts e de tanta dor de cabeça, q ocupou meu último ano de maneira tão, digamos, peculiar. Ele não só tinha "trouble" tatuado na testa, como carregava consigo uma legião de fãs que gostavam de compartilhar suas histórias, e me avisavam q a coisa ali era a maior roubada. Mas eu insisti, e aqui estou, tendo q lidar agora com o ego ferido dele, q não admite perder o público cativo agora que eu finalmente começo a ver a luz no fim do túnel. E para coroar tudo isso, a grande paixão da minha vida, que por 10 anos me consumiu, e q lá do outro lado do mundo, nem sabia q eu existia.

E depois dessa pequena lista de horrores, e do meu sono ter saído correndo na direção contrária de tanto medo às 3 da manhã, fui invadida por uma espécie de epifania do inferno: será o meu péssimo gosto, a minha péssima lista de relacionamentos, será a minha eterna mania de me apaixonar por pessoas inacessíveis e com óbvios problemas emocionais e para se relacionar, será que tudo isso é na verdade um próprio e velado medo de compromisso???

Eu disfarçava dizendo que os meus "amores possíveis" (para plagiar poesias alheias) eram medíocres, não me dariam a vida que eu tanto queria. Mas como ficou claro a dois posts atrás, a ficha de que ninguém é responsável pela mediocridade da minha vida, a não ser eu mesma, já caiu, e ficou ressoando, ando, ando, ando.... Os medíocres não são eles. Sou eu. Ou não. E é escolha minha, e quem diria, nos últimos tempos eu tenho feito ótimas escolhas.
Mas e agora?? Será que minha urticária emocional, que não me permitia começar uma faculdade ou imaginar ficar no mesmo lugar por anos, me levou a só me envolver com pessoas que obviamente não poderiam me dar o que eu tanto achava que queria - e chorava contra o travesseiro por noites a fio, por não ter??

Meus pensamentos voltaram então para a tal oficina de roteiro. E eu lembro que foi exatamente por isso que eu tanto quis fazer cinema. Eu amava escrever, era boa nisso, e passava boa parte do meu tempo criando histórias e fantasias, personagens mais interessantes que minha própria vida. E queria fazer cinema para ver se finalmente, conseguia transportar aquela minha realidade paralela para algo real, mesmo q através de uma tela. Mas isso exigia uma coragem que eu não tinha na época.

Hoje - e isso era algo q eu já vinha notando a tempos - minha criatividade parece ter se esgotado, e personagens e enredos não surgem mais com facilidade para mim. Mas somente ontem eu percebi o pq disso. Parece que quanto mais minha própria vida se torna interessante, qto mais eu vivo e aprendo a gostar da realidade, mais a fantasia vai embora. Engraçado isso né? Antes, eu queria escrever roteiros. Agora, eu quero (e gosto, e sou boa nisso) fazer produção. Produção, que por definição e necessidade é a arte de fazer as coisas acontecerem, de correr atrás do impossível, de transformar os sonhos sonhados por outros em realidade.

Gostei. E quero mais. E acho até que qdo uma nova turma de roteiro abrir, vou fazer.... Só para aprender a sonhar sabendo que sei - e posso - tornar tudo realidade. Deve ser bemmmmm melhor, não é mesmo???

E quem sabe, não começo a fazer isso também com os próximos homens que cruzarem meu caminho....

Quem diria. A realidade, pode ser mesmo melhor que a fantasia.

3 comentários:

Chris Spode disse...

Acabei de receber um email da minha melhor amiga me perguntando:
"Quem é vc e o que vc fez com minha amiga pisciana? Sério, onde vc tinha trancafiado o lado taurino-realista que apareceu agora?"
... não sei.só sei q adoro this new me.
acho, e só pode ser isso, q é o empoderamento de finalmente, me sentir e saber poderosa. aquilo q eu tinha falado de finalmente ser e me sentir a pessoa q as outras pessoas viam. dai vc se sentindo segura a respeito de vc mesma, fica mais facil analisar as merdas do passado sem medo de estar repetindo tudo de novo né?? anyway..... melhor q terapia. bendita hora em q eu criei esse blog. nunca seria capaz de colocar meus pensamentos em ordem assim em um consultório de psicanalista.......

Nana Rodrigues disse...

"é isso ai....como a gente achou que ia ser, a vida tão simples é boa...quase sempre..." não tenho mais nada a declarar... o post já é auto-explicativo...
frente é frente, verso é verso e vice versa...
chris...maternidade é tudo!!
beijo!!

Bel disse...

... primeiro. Tu és fogueta mesmo, Chris. Vejo tua competência. Tens uma inteligência que reluz ... bem certo ... que a "emocional" (se é que ela existe e pode ser dividida do todo) pode ser trabalhada um tantinho mais.
Vamos fazer o curso juntas ... talvez. Tenho certeza que criarás roteiros únicos.
Saudades ...
Vou aparecer em breve, tá?
Beijos,
Bel.