quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sobre esteriotipos...



A alguns dias dei de cara com esse video simplesmente incrivel. chega a ser engraçado me deparar meio que por acidente, com uma fala que consegue resumir, em poucos minutos, tudo aquilo que eu saí da faculdade querendo dizer.... o video fala sobre a criação de esteriótipos e do perigo de termos apenas uma versão de algo - seja de fatos ou de culturas.


falei muito disso na minha monografia, desta relação entre poder e cultura, e de como o poder acaba moldando o imaginário popular - e criando versões únicas e verdadeiras de povos, nações e da própria história. não consegui evitar de sorrir qdo ela fala, no final do video, sobre nollywood, a industria de cinema nigeriana (a maior do mundo em numero de produções), pois lembrei de ver a mesma reação descrita por ela, em meu orientador, ao ler meu capitulo que falava sobre como essa industria estava revolucionando o mercado e a imagem dos nigerianos. mesmo ele, professor de antropologia, nunca havia ouvido falar dessa industria, e ficou espantando ao saber que um país africano havia sido responsável por um boom cultural dessas proporções. mesmo ele - profundo entendedor das diferenças culturais do mundo - em um primeiro instante se chocou com a quebra deste paradigma: o da miséria econômica e cultural africana.


qtas vezes, em sala de aula, nos deparamos com colegas e até mesmo professores se referindo à Africa como sendo um único país, uma massa homogênea de pobreza e falta de perspectivas? e o fato de estarmos pagando para aprendermos exatamente as diferenças entre culturas que tanto permeiam as relações internacionais só tornava tudo mais ridiculo.


mas o que eu mais gostei desse vídeo (e depois de tanto texto, talvez vcs até percam a vontade de ver o tal vídeo), foi a percepção de que o discurso sobre o perigo das histórias únicas e da criação de esteriótipos serve não somente para povos e suas culturas, mas tbem para pessoas e comunidades. para mim, foi inevitável pensar no esteriótipo perpetuado pela mídia (e encravado no imaginário popular) dos gays afeminados e lésbicas masculinizadas. como dito no vídeo, "o problema com esteriótipos não é que eles estejam errados - apenas são incompletos". esteriótipos são limitadores, fazem com que rótulos maquineístas sejam estampados em letras garrafais sobre uma diversidade infinita de pessoas e costumes. como Chimamanda Adichie fala, esteriótipos e histórias únicas enfatizam somente as diferenças, e fazem com que as similaridades, as características compartilhadas que proporcionariam a compreensão e aceitação, sejam ignoradas. todo mundo sabe que é da natureza humana temer o que lhe é estranho, diferente. e esteriótipos nada mais são do que a exaltação da diferença. é a perpetuação de esteriótipos que faz com que no mundo pós 11 de setembro, todo árabe seja considerado, até que prove o contrário, um possível terrorista. é o esteriótipo que faz com que todas as mulheres de véu sejam consideradas ou possíveis mulheres bombas, ou inevitáveis vítimas de uma sociedade patriarcal e dominadora - como se não fosse possível que, por algum motivo (quase incompreensível para mim mesma, eu confesso), elas achassem um direito seu professar sua religião e sua fé através de suas vestimentas.


latinos (com cara de latinos e não com traços de seus antepassados europeus) querendo visitar países de "primeiro mundo", com certeza serão futuros imigrantes ilegais. gays não são aptos a trabalhos braçais ou que exijam imposição da força física ou de caráter - como o serviço militar por exemplo. artistas são pessoas que não queriam trabalhar "de verdade" e resolveram passar a vida vivendo o hobby das pessoas sérias. direitos humanos são para presos e bandidos. japoneses tem a obrigação de serem viciados em tecnologia e super inteligentes. argentinos são arrogantes e mal educados. pessoas acima do peso são preguiçosas e incapazes. e por aí vai.


sem que percebamos, nosso dia-a-dia é preenchido pela perpetuação destes esteriótipos - consagrados por indústrias midáticas que nada mais são do que representações do poder vigente. os esteriótipos fazem com que direitos civis sejam cerceados ou negados, fazem com que o peculiar e diferente, se transforme em estranho e amedrontador. e pode parecer quase impossível nos vermos livres deles, mas não é. o Brasil por exemplo, aos poucos consegue quebrar sua imagem de país tropical, fornecedor de bundas, caipirinha e futebol, e se provar uma potência econômica, capaz de liderar seus irmãos em desenvolvimento. se um país gigantesco pode, pq nós também não? eu pessoalmente, acabei de decretar que esteriótipo é uma das piores e mais cruéis palavras do meu vocabulário. e vc, que tal quebrar alguns esteriótipos hoje?

6 comentários:

Enrique disse...

Hmmm, eu também não conhecia nollywood, e achei BEM legal. Algumas semanas atrás eu apresentei um seminário sobre um texto do Marshall Mcluhan, falando sobre cinema, e nesse texto (escrito em 70 e alguma coisa) ele fala sobre como os africanos não conseguiam "entender" cinema, pois não tiveram uma cultura tipográfica e não conseguiriam entender os "truques" cinematográficos, como pessoas que saem da tela, transições temporais, etc. E isso me deixou encucado: de onde diabos ele tirou isso? Seria mesmo verdade? Será que é realmente um "dom" da cultura ocidental o simples ato de assistir um filme? Não faz sentido pra mim... E agora saber de Nollywood me deixou bem contente, em saber que Mcluhan estava errado! (Na verdade eu sou fã do cara, mas admito que ele falou muita merda ;P)
Dos estereótipos: na faculdade eu estou tendo aula de antropologia, e o ponto principal que o professor tenta passar pra gente é que vivemos num mundo fragmentado. Antes existiam papéis fixos na sociedade, modelos rígidos em que era preciso se encaixar...e então chegou a modernidade, os satélites, a cultura de massa, a globalização, a internet e esses perrengues todo, e tudo que era sólido se desmanchou no ar. Hoje todo mundo é um bilhão de coisas, personalidades multifacetadas, múltiplos papéis que formam um indivíduo mais confuso porém muito mais completo. Hoje em dia temos a possibilidade de sermos quem queremos ser, ou mais importante, sermos quem somos de verdade sem precisar prestar contas pra sociedade. CLARO, isso na teoria...na prática é mais difícil, na prática ainda é preciso aguentar muita merda, e matar leões todo santo dia só pra existir. Por isso é preciso lutar pra quebrar estes esteriótipos, por mais arraigados que eles pareçam estar. Enfiiim...ótimo teu texto, adorei e concordo completamente!

(E perdoa meus comentários gigantes, hahahaha)

Chris Spode disse...

olha, sou forçada a admitir que o cinema, talvez mais do q qquer outra arte, se apossa de símbolos e referencias que por uma questao puramente historica, são calcadas na cultura ocidental. porém é muito, muito mais que isso. faça uma exibição de um filme qquer para qquer aldeia indigena culturalmente preservada (se ainda for possivel achar uma) e vc verá que a magia da imagem em movimento diz muito mais do que a decodificação dos simbolos narrativos utilizados. claro, eles não irão rir de Tempos Modernos, pq o chaplin brigando com maquinas industriais não vai dizer nada para eles, ou ainda, talvez não entendam mesmo uma imagem estatica de um relogio (tão facilmente reconhecida por nós como representando uma elipse, um salto de tempo), mas me nego a acreditar que para alguém assistir e gostar de um filme, precise ser o mesmo background cultural do filme. Qdo estudamos roteiro, aprendemos que existem ferramentas narrativas baseadas na mitologia que nos ajudam a contar historias - na verdade aprendemos que não existe quase nada original, que tudo o que criamos é na verdade baseado na construção da narrativas tão antigas qto o tempo (a tal jornada do heroi do joseph campbell). a maioria dos autores relaciona isso com a mitologia grega, mas outros estudos identificam pontos da mitologia grega que se relacionam com a mitologia egípcia, e por aí vai... todos os povos possuem a tradição de narrarem suas historias -e o cinema nada mais é do que uma ferramenta dessa narrativa. acho que o que eu estou tentando dizer é: talvez o Mcluhan estivesse certo ao dizer que os africanos não possuiam todas as formulas para a compreensão do cinema ocidental - mas acho que o que ele não previu foi que os africanos não só não deixariam de apreciar o cinema por isso, como eventualmente se apropriariam e fariam o seu PROPRIO cinema. cinema, arte, é isso: a gente gosta (por aquela razão absurda que ninguem consegue explicar) e então, eventualmente, nos apropriamos disso, e mais eventualmente ainda, resolvemos reproduzir - dessa vez usando nossos proprios simbolos e conceitos. Nollywood explodiu depois que a Nigéria e todo o continente africano já estavam saturados da influencia cultural ocidental, mas nem por isso o cinema deles é uma copia do nosso, muito pelo contrario. Acho que o cinema é a tela em branco, e a camera o pincel - e cada cultura pinta o que tem para contar ali. Escrevi muito sobre isso no meu TCC (sou formada em relações internacionais mas consegui escrever sobre o cinema como instrumento politico, hehe), onde eu defendi que o cinema na verdade, se transformou em uma arma de defesa de algumas culturas, como a indiana ou a iraniana. Não é que eles não compreendam o cinema ocidental - alias, tanto compreendem que se apropriaram do que quiseram, mas fizeram um cinema todo deles, baseado na cultural milenar deles. E nós por acaso, mesmo sem compreendermos totalmente a cultura iraniana, deixamos de compreender o cinema deles??? Enfim.... eu poderia virar a noite falando sobre isso, mas acho que cehga né?? eheheheh....

Chris Spode disse...

alias, vc pedindo desculpas pelos comentarios grandes e eu criando quase outros posts aqui! hehe... enfim, para encerrar o papo sobre esteriotipos: a questao da globalização é isso - hj em dia, temos acesso a tudo, vemos tudo, assimilamos quase tudo. o estranho já não é mais tão estranho, já não dá mais tanto medo. então cada um começa a ter liberdade para se mostrar como é, pq afinal o mundo já é tão bizarro que passamos quase despercebidos. mas cada ação, geral a famosa reação. por um lado, a globalização nocauteia fronteiras, especialmente as culturais. por outro, as culturas se sentem ameaçadas, e começam movimentos de auto defesa. o cinema indiano por exemplo, é uma maneira nada sutil que eles acharam de defender a propria cultura junto aos seus jovens. porém é esse mesmo principio de defesa que faz com que extremistas defendam que o terrorismo é a unica maneira de preservação do islã, faz com que neo-nazistas se achem no direito de atacarem negros e homossexuais, e por ai vai. por incrivel que pareça, a globalização, mesmo que em um movimento de reação, atualmente reforça os tais esteriotipos... mas ao mesmo tempo permite que dois estranhos que se conheceram (virtualmente) a dois dias, estejam aqui discutindo o destino da humanidade, com uma liberdade inimaginável a anos atras. e é nessa liberdade que reside a esperança, não é mesmo??? ;)

Chris Spode disse...

(e como eu nao consigo parar de falar - ou escrever - qdo me empolgo)...
politica e culturalmente, a situação da união europeia na atualidade é um exemplo disso tudo. o medo de que as identidades nacionais se percam esta fazendo com que as populações rechacem todo o conceito da UE e esta efetivamente colocando em risco o unico exemplo (que realmente poderia ser) eficaz de integração... achei um artigo legal sobre isso: http://www.dw-world.de/dw/article/0,,1983684,00.html

Bel disse...

Essências. No fim ou no começo de tudo ... sempre me pego pensando em como é difícil se filtrar quais sāo elas ... pra um indivíduo e seu coletivo.
Eu me encantei com as argumentações de vocês dois. Li e guardei ... O que nos salva é a troca. A possibilidade de estar junto ... seja do jeito que for.
Irei acompanhá - los ...
Esmagatícia ... Um beijo.

Bel

Enrique disse...

Hahahaha, ebaaaa, respostas imensas! Vamlá: concordo totalmente contigo quanto ao cinema conseguir se fazer entender sem precisar de todo um background cultural e tal. Mil pontos pra ti por trazer a tona o Joseph Campbell (sou fã de carteirinha dele, hahaha) e por chegar nesse ponto crucial das narrativas mitológicas. O Mcluhan diz que séculos lendo livros treinaram o ocidente a entender mais facilmente a linguagem cinematográfica, mas eu discordo dele...a chave pra entender a linguagem do cinema já estava conosco desde a pré-história, nos xamãs pré-históricos encenando cenas de caças, inventando histórias e criando mitos essenciais. Todo mundo sabe ouvir e contar histórias, e como vc disse o cinema nada mais é do que uma ferramenta dessa narrativa. Quanto a Nollywood...no meu seminário eu usei Bollywood como exemplo, pra tentar explicar essa apropriação do cinema de hollywood pra fazer um outro tipo de cinema, que usa elementos "americanos" pra expor uma essência totalmente indiana. E acho isso absolutamente genial, essas mutações culturais que acontecem o tempo todo, seja no cinema, na música, aonde for.


Sobre a globalização e esse movimento de auto-defesa, que cria extremistas e neonazistas e demais seres estúpidos...eu fico preocupadíssimo com isso. Parece que a segunda guerra não serviu pra nada, que a morte de Luther King foi em vão, e que ninguém aprendeu até que ponto a xenofobia e a discriminação podem nos levar. Ao mesmo tempo...acho que a esperança reside sim na liberdade, e em insistirmos na abertura, na diversidade, na mistura de todas as culturas e escolhas e personas e papéis possíveis. O movimento reacionário sempre vai existir, tentando defender a "pureza da cultura", as "tradições" e tudo que só existe de verdade na imaginação de quem defende essas coisas. Nenhuma cultura é pura, toda cultura só cresce e sobrevive através das trocas e intercâmbios com outras culturas...e por isso eu penso que a mistura, o intercâmbio, a conversa não pode nunca parar. Nesse sentido a internet tem um papel crucial, apesar de pouco realizado e ainda menos executado...enfiiiim. Ah, reza a lenda que na china é considerado uma maldição gravíssima falar pra alguém: "que você viva em tempos interessantes", porque tempos interessantes são também instáveis, perigosos, estressantes. E olha só, penso que vivemos nos tempos mais interessantes possíveis, no centro de mudanças que vão chacoalhar o mundo e que ainda mal começaram.