segunda-feira, 9 de maio de 2011

day 08 - a song that you know all the words to

Minha mãe diz que eu não tive infância. Ora, eu mesma sempre brinco que eu não tive infância. E isso não é bem verdade, eu tive infãncia..... Só foi uma infância, digamos, unusual. Eu cresci mudando de cidade para cidade, incrivelmente ligada à minha família - pai, mãe, um irmão dez anos mais velho, e uma irmã com seis anos a mais. Tudo que eu queria ser na vida era ser inteligente como meu irmão e linda como a minha irmã. E tudo que eu queria fazer na vida, era afundar meu nariz em livros e mais livros e deixar de lado aquelas bonecas chatas nas quais eu nunca achei muita graça (sério gente, elas não falavam. não discutiam meus livros comigo, não contavam piadas, não gostavam do menudo. como eu ia gostar delas????).

Então, dentro dessa vida de mudanças e no meio de uma família para lá de amorosa e auto-suficiente, cresci querendo falar igual gente grande, me portando igual gente grande e claro, exatamente por tudo isso, sendo uma criança extremamente chata. Mas tudo bem, nada que terapia para o resto da vida não resolva! ;)

Mas além de ser chata e metida a adulta, eu cresci, inevitavelmente, sob grande infuência dos gostos dos meus irmãos, que óbvio, estavam a anos luz do gosto de uma criança "normal". Da minha irmã, copiei a vontade de ser artista, e acabei fazendo 3 cursos de manequim e modelo, com direito a aulas de etiqueta e tudo o mais. Herdei também o gosto pelos Menudos, que me fez obrigar minha mãe a me levar no show deles e me fazia passar batom vermelho nos lábios e subir na cama para beijar o pôster deles que havia sobre a minha cabeceira - tudo isso com 3 anos de idade. E se vc está se perguntando, sim, meu favorito era o Ricky Martin, e ali minha mãe já deveria saber que eu acabaria a vida como defensora da causa LGBT.

Do meu irmão, eu herdei o gosto musical por rock nacional dos anos 80 e o gosto bizarro por quadrinhos e livros estranhos. Era do meu irmão o primeiro livro da Agatha Christie que eu li (e que virou uma coleção com todos os livros publicados dela em português, qdo eu tinha apenas 12 anos) e foi ele que me deu de presente duas paixões: meu primeiro livro do Conan Doyle, Um Estudo em Vermelho, que me deixou viciada no meu querido Sherlock, e - como presente no meu aniversário de 9 anos - uma edição linda e maravilhosa de Os Três Mosqueteiros (provavelmente meu livro favorito até hoje). Como eu era uma criança chata, nunca suportei quadrinhos como Turma da Mônica e afins, mas roubava (escondida da minha mãe, claro), os Conans e Mads do meu irmão. Sério, (não riam!!), Conan - O Bárbaro era meu gibi favorito qdo eu era criança. E meu humor foi totalmente moldado pela Mad, o que fala muito sobre a adulta perturbada q sou..... mas enfim.

Voltando ao foco desse post, e ao motivo de eu estar aqui fazendo terapia online de madrugada, nem só de Menudo e Dominó vivia aquela pequena criança. Lembro da primeira vez, acho que por volta dos 6 anos de idade, em que eu vi o vinil do Cabeça Dinossauro do Titãs, com aquela capa absurdamente foda. Foi como se o Mar Vermelho se abrisse à minha frente e eu visse Deus. Cresci cantando Flores e horrorizando minha mãe toda vez que cantava Bichos Escrotos. O Pulso então, era a minha favorita!!!! Fora Titãs, era impossível não escutar muito Legião, Paralamas, Ultraje, Camisa de Vênus, enfim, tudo que passasse pelas fitas cassetes e vinis do meu irmão e de seus amigos. Foi nessa fase tbem que conheci Queen, o que foi outra revolução na minha vida.... Mas de todas essas músicas, durante toda minha infãncia e pré-adolescência, sempre existiu uma que me fascinava. E era Faroeste Caboclo. Era como um mito, algo além da minha compreensão, uma música que eu não sabia se deveria escutar ou ler, adorar ou me sentir péssima pela história daquele homem que passa por tudo aquilo, e acaba morto em um duelo em Brasília - sem falar que qdo eu descobri o que era o "comia todas as menininhas da cidade, de tanto brincar de médico aos doze era professor".... oh gloria! Acho que sempre encarei essa música como uma Ilíada pop, cada frase contava uma história, merecia ser analisada e demorava anos para ser realmente compreendida.....

O legal é que todas essas músicas que povoaram minha infância, possuem letras fantásticas e difíceis de cantar. Mas Faroeste Caboclo era um novo limiar, algo além. E provavelmente por isso mesmo, um belo de um desafio. Lembro de algumas vezes, ficar tentando cantar ela junto com o disco, só para enrrolar a língua e me perder completamente no meio do caminho.... Até um certo dia.

Um certo dia, onde eu, já com meus 15 anos, logo após a morte do Renato Russo, estava sentada com algumas amigas nos degraus do prédio de uma delas, e um outro amigo chegou, trazendo seu primo de fora, que estava passando uns dias na cidade. Seu primo inteligente, mais velho, com olhos verdes lindos d-e-m-o-r-r-e-r. E eu, grande conhecedora das coisas do mundo (contadas pelas minhas pilhas de livros, claro), comecei a conversar com ele, e presumo, a babar diante de tanto charme (convenhamos que não precisa muito para impressionar uma menina de 15 anos não é mesmo??). Em algum momento da noite, começamos a falar da morte do Renato Russo, de suas músicas.... E começamos a cantar. Cantamos Eduardo e Mônica, Pais e Filhos.... E então cantamos Faroeste Caboclo. Quer dizer, eu tentei... E ele me ensinou. Estrofe por estrofe, palavra por palavra. E eu aprendi. Assim como aprendi, algumas horas depois, que garotos mais velhos de olhos verdes lindos, mesmo qdo ensinam músicas incríveis para adolescentes gordinhas e metidas a inteligente, não querem necessariamente beijá-las. E confesso que tanto a letra qto a lição ficaram comigo daquela noite.

Então, apesar de saber outras mil e uma letras, apesar de na verdade, ter que gostar da letra antes mesmo de gostar de qquer música nova que escuto, é da letra de Faroeste Caboclo que eu sempre me lembro. De João e de Maria Lúcia, e do menino lindo de olhos verdes que me ensinou a história deles, mas de quem eu nem lembro mais o nome. E das inevitáveis verdades da vida que aprendemos ao longo do caminho.

2 comentários:

Enrique disse...

Aaaaah, valeu a pena esperar sua história! Adorei, adorei, heheheh...minha "iniciação" no rock nacional aconteceu quando eu tinha uns 10 anos de idade, e descobri um programa na rádio da minha cidade que, por duas horas no sábado a noite, tocava somente rock nacional: Titãs, paralamas, legião, engenheiros, ultraje, barão vermelho, camisa de vênus, kid abelha... Eu gravava o programa religiosamente todo sábado, em fitas k-7, tomando cuidado pra não gravar música repetida e pra não perder trechos de música no final de cada fita (coisa de neeerd). E noooossa, descobrir aquele programa foi o principal motivo de eu hoje ser um aficcionado por música....e claro, tenho um carinho todo especial por essas bandas, principalmente Legião, Paralamas e Engenheiros (que ninguééém gosta, mas eu adoro). Nesse programa de rádio, o radialista usava uns truques sujos: todo programa tocava "Faroeste Cabloco" e/ou "Infinita Highway", já eliminando um pedação considerável do programa...eu ficava revoltado, porque já tinha umas 5 fitas com Faroeste gravada ;P

E aaaaah, as lições que a gente aprende e que a gente não aprende, aos 15, aos 20, aos 27, aos 90, e todas essas letras de música que a gente jamais vai esquecer...
Beijos! ;))

Chris Spode disse...

hahaha.... é incrível pensar em como essas pequenas mania de mini serzinhos neuróticos iriam moldar os adultos neuróticos - mas felizes!!!! - que somos hoje, hehe.... vc ainda tem alguma dessas fitas???

e simmmmm - as lições, ahhh, as lições. As lições, aprendidas ou não, para as quais sempre temos uma trilha sonora!!! se as lições não ficam - ou se ficam fundo de mais - pelo menos, sempre teremos as músicas, certo??? =)